A entrevista feita com o arquiteto Carlos Arcos. Arcos é uruguaio e recentemento mudou-se para Curitiba para dedicar-se a uma de suas mais importantes obras: o Estádio Joaquim Américo, sede curitibana da Copa do Mundo da Fifa Brasil de 2014.
Carlos é formado no Uruguai em 1981 e após sua graduação foi estudar na FAUUSP para ter um diploma brasileiro. Durante a faculdade ele trabalhou para o escritório de Rino Levi até 1984 quando se formou e abriu seu próprio escritório em São Paulo. Lá morou por 15 anos até voltar para o Uruguai e ter um dos maiores escritórios do país.
1 – Você poderia descrever sua trajetória acadêmica e suas principais influências?
Entrei na faculdade em 1970. Naquela época existia uma forte influência inglesa – particularmente dos anos 60 – no ensino da arquitetura uruguaia. Estes anos foram muito agitados; produzindo frutos como o Archigram e até mesmo as primeiras obras de Norman Foster e também foi o que originou a formação conceitual/acadêmica para a criação do Centro Pompidou (no momento em que Piano e Rogers utilizavam os mesmo conceitos). Na época em que era estudante, os projetos acadêmicos eram muito parecidos com o Centro Pompidou.
Também na Inglaterra, estes anos foram muito efervescentes; era quando se estava vivenciando um boom econômico e existia uma relação muito grande com os EUA, tanto na arte como na cultura. Era o começo da massificação da informação e o momento gerava uma escola muito ativa e criativa baseada nos conceitos teóricos dos Smithsons dos anos 50. Eles criaram o Brutalismo, identificando-o não como um movimento plástico, mas como um movimento ético. Era tentar localizar na mesma posição as circulações e as instalações para criar plantas livres.
E o Modernismo?
O Modernismo não teve tanta influência porque depois dos 10º CIAM, jovens arquitetos da vanguarda renegaram a carta de Atenas e formaram o Team 10. Eles pouco editavam os conceitos em livros, mas tinham uma base teórica consolidada. Foi um momento em que destruíram o Modernismo. A vanguarda internacional já não concordava com a carta de Atenas.
2 – O que você considera primordial em um projeto de arquitetura?
Vamos começar ao contrário, para que serve arquitetura? Serve para atender um determinado usuário. Sou contra a arquitetura genérica e a favor de uma arquitetura singular, para um determinado uso e usuário. Se você pensa um usuário genérico não é reduzido, é ampliado. Ou seja, não podemos nos apoderar de apenas uma característica em comum, como a raça humana. Temos que saber as características únicas dos usuários. O arquiteto é o construtor de âmbitos para viver, para jogar, se divertir, escutar música.
Arquitetura não é feita para ser genérica deve ser pensado para o seu uso. No exemplo de estádio de futebol, suponha que ele possa ser multiventos, isso é uma vantagem adicional, mas seu objetivo principal é o de jogar bola.
3 – Qual a concepção utilizada para a ampliação da Arena da Baixada?
O princípio foi primeiro, respeitar o estádio original. E isso se dá através de diversas ideias que complementam, enriquecem e potencializam o projeto original. Não negar, mas potencializar tudo o que ele oferece de positivo.
São duas arquibancadas, mantem-se elas. Os setores VIPs; tinham dois: o superior tinha uma visão limitada, por isso foi deixado apenas o inferior. As circulações são pequenas e para evacuar o estádio era um problema; elas foram aumentadas relocando os locais de alimentação, que passaram para as esquinas.
Outra pequena grande questão a interrelação com a cidade, a esplanada que atualmente serve apenas para acessar as escadas foi alterada para ser uma expansão do estádio o nível de acesso e embaixo deste terá lojas, lanchonetes e espaços para lazer. No ponto de vista urbano foi o maior destaque para que a cidade vivesse o estádio.
Outro ponto fundamental foi projetar uma arena indoor, de 10.000 lugares que servirá para Curitiba que hoje não possui uma arena destas. Terá uma sinergia total entre os dois espaços que se cria um grande centro de convenções.
Concluindo é a integração urbana, integração funcional interna com sinergia, aumento de fluxos, conforto dos espectadores, segurança e muitas coisas mais.
Quais são alguns dos principais avanços tecnológicos do estádio?
São muitas coisas, como a tecnologia de informação (TI). O estádio em termos de TI será igual aos estádios contemporâneos da Europa. Em termos de edifício inteligente, terá a segurança, iluminação de controle, sensores de água, de eletricidade e de fumaça no prédio todos integrado a todo o momento. Câmeras de segurança de alta tecnologia em todo ponto no estádio que vão ser instaladas por exigências da FIFA que traz muitos avanços.
O gramado passara a ser semi-artificial que tem três vezes mais resistência que o natural e está instalado em vários estádios do mundo. A iluminação será quadriplicada em relação a atual e ainda supõe-se que as filmagens de 2014 serão em 3D.
Estes são todos os avanços que ajudam com o legado da Copa do Mundo. A Copa do Mundo vai deixar muitos avanços no país como tecnológicos e culturais.
4- A Arena da Baixada, diferente de outros projetos, já esta parcialmente concluída. Em que pontos isso foi benéfico?
O ponto principal em que foi benéfico é que eles esta numa área urbana excepcional. A FIFA fala na localização do estádio e o ideal é que fosse no centro da cidade, mas isto é difícil; dificilmente ele será um elefante branco. Também tem uma questão muito boa, ele está 70% pronto.
Além disso ele já foi construído nos padrões da FIFA de 1996, que 15 anos atrás já tinham as mesmas premissas de atualmente.
O projeto foi perfeitamente adaptável, não havia razão pra pensar em demolir pra fazer um novo, pelo contrário tudo que está ali podia ser potencializado.
5 – Qual a visão que você tem sobre o urbanismo curitibano comparado ao montevideano?
Curitiba está mais avançado pelo transporte público, muitos parque e tem uma metragem de áreas verde muito boa. E olhe que estou comparando com uma bela cidade que tem a vantagem de ter 40 km em frente ao rio. Naturalmente ela tem esta grande vantagem, a praia.
E no pensamento urbano Curitiba está muito a frente, pelos sistemas de eixo que logo depois foi potencializado por Jaime Lerner e suas decisões urbanas. Acho que Curitiba está muito bem preparada para receber a Copa do Mundo.
6 – Qual a relação da sua arquitetura com outras artes?
Toda e nenhuma. Eu aprecio todas as artes e sou um grande observador de artes plásticas, ouvinte de música, assisto teatro, adoro ver obras de Van Gogh, Mondrian, vou à museus. Todas e nenhuma, pois não tenho influências diretas nas minhas obras, mas todas me influenciam. Gosto de observar os experimentos que fazem em novos materiais nas artes plásticas para poder reverter nas criações de ambiente
7 – Recentemente o senhor ganhou um projeto da CDHU, como é trabalhar com grandes complexos arquitetônicos?
Eu trabalhei a minha vida toda em habitação popular e também em grandes complexos, empresariais, esportivos e residênciais. Essa minha visão de trabalhar neste tipo de projetos começou quando trabalhei no escritório do Rino Levi em 77 em São Paulo. Por dois anos fiz um projeto de São Bernardo do Campo para 3.000 habitações, aí eu percebi o que significava fazer um projeto de grande porte. A partir daí fiz vários projetos de grande porte, como a usina hidrelétrica de Pedra Cavalo na Bahia. É um prazer estar em equipes multidisciplinares, como: engenheiros, geólogos e assistentes sociais.
Quando se faz um refugio, para dormir numa noite, é o mínimo do mínimo dos pensamentos arquitetônicos. Não deixa de ser importante como a usina. Mas num você poder exercer como quer e no outro você tem muitas pessoas para se integrar, é uma grande equipe. O Arquiteto tem que ser mais um num processo e também temos que lutar por nossa função. A arquitetura é muito mais do que estética e arte.
Por exemplo, o estádio tem muito problemas a serem resolvidos, como fluxos, comunicações, transmissão, etc. Na circulação, tem públicos, publico VIP, COL/FIFA, afiliados comerciais, juízes, delegados, jogadores, jovens do programa da FIFA, funcionários, oficiais, bombeiros, polícia, todos estes tem que ter o acesso e circulações definidas, isto não é estética.
Também tem que conhecer a tecnologia para ela estar ao seu lado, na transmissão o telespectador é tão importante quanto as 40.000 dentro do estádio. Assim como temos que cuidar das pessoas dentro do estádio temos que cuidar das pessoas assistindo o jogo por fora.
Qual é o papel de um arquiteto numa equipe multidisciplinar?
O arquiteto é mais um desta equipe e tendo a dizer que ele passa a ser o coordenador desta equipe, o especialista que tem mais abrangência de conhecimento. Nós temos preparação para ter esta abrangência e como não podemos saber tudo trazemos pessoas que agregam no projeto. Sempre dando autonomia para estas pessoas especialistas nestes assuntos, e por isso tenho que informar as necessidades e ele me devolver a resposta. O arquiteto é um grande “juntador” de peças.
8 – Qual sua mensagem para os profissionais recém formados em arquitetura?
Vamos em frente, foi escolhida uma profissão muito difícil que tem que estudar muito, ter conhecimento vasto em todas as matérias, não tem nada que não possa nos interessar. Não podemos deixar de sermos conhecedores de qualquer matéria, temos que ter os olhos abertos, saber enxergar, ser curioso abrir as portas que estão fechadas, enxergar muito e no fim das contas está em nós o futuro do habitat humano, onde as pessoas moram, está conosco.
Abaixo conheça um pouco mais das obras recentes do arquiteto!
Fonte: Carlos Arcos Arquite(c)tura.












Olá , estou fazendo uma pesquisa sobre o arquiteto Carlos Arcos , e gostaria de saber se você sabe a idade dele.. Agradeço desde já.
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