Falkirk Wheel - RMJM

Aonde a Arquitetura Não Tem Vez

Giovanni Medeiros

Lembro muito bem de meu ano como calouro na faculdade de arquitetura e urbanismo. Jogado no curso ao acaso, devido ao gosto por desenho, construções com lego durante a infância, e claro a esperança de dividir a sala de aula com uma maioria numérica de lindas mulheres, um dos fatos mais memoráveis deste inicio de período acadêmico tem haver de fato com a minha relativa aleatoriedade de escolha de curso.

Em meio as habituais chacotas acerca da opção sexual dos arquitetos, proferidas em brincadeiras inofensivas, uma frase de um grande amigo meu, estudante de engenharia civil na época, adentrou meus ouvidos, agarrou-se ao me cérebro e desde então nunca mais saiu de minha cabeça: “Para que fazer arquitetura se vocês (arquitetos) só podem fazer casas de até dois pavimentos”. A inveracidade de tal afirmação que para mim na época não parecia tão clara, logo mostrou sua verdadeira faceta com algumas semanas de aula de teoria e de projeto de arquitetura, porém o questionamento de até onde a arquitetura vai e onde é apenas obra de engenharia, permeia a mente de muitas pessoas.

Ao contrário do que o senso comum crê, arquitetos não são decoradores (embora exista a arquitetura de interiores que difere desta concepção comumente confundida), e também não são desenhistas/cadistas (quantas vezes alguém já lhe pediu “só um desenhinho, bem rápido, só para ter uma idéia). Arquitetura é uma área bastante ampla de trabalho que envolve organização do espaço tendo em vista o atendimento das necessidades dos usuários levando em conta um série de critérios de funcionalidade, estética e estrutura.

Sendo comumente relacionada aos usos residencial e comercial, a arquitetura se estende a muitos outros campos como, hospitais, aeroportos, estádios além de outros espaços, porém nós últimos anos vemos a arquitetura ocorrer de fato em ocasiões muito peculiares aonde até então não havia um fino trato.

A medida que as cidades e populações crescem a necessidade de infra-estruturas específicas para o funcionamento destas também crescem, em alguns lugares vemos que a preocupação de governos, usuários e proprietários com a estética e relação destes com o meio urbano (ou rural) também aumentam.

London Cable Car - Wilkinson Eyre

Alguns exemplos deste fenômeno (provavelmente) já vinham sendo realizados por arquitetos, como é o caso de edifícios garagem, até então relegados a mera função de armazenamento temporário de veículos com pouco ou nenhum apelo estético e preocupação com sua inserção no meio urbano.

Edificio Garagem - Mozhao Studio

No entanto a preocupação de muitos não se restringe apenas ao meio urbano, mas a esfera ambiental e procura a mistura de usos no intuito de melhorar a relação deste com as populações próximas, como é o caso de estações de tratamento de esgoto como a projetada por Bjarke Ingels ou a de Jordan J. Lloyd que servem também como local para lazer.

Advanced Waste Economy - Jordan J. Lloyd

Outros casos são ainda menos pretensiosos, buscando apenas um maior apelo estético de caráter contemplativo, em áreas aonde praticamente não há arquitetura ou que pelo menos até então não a enxergávamos, sendo o projeto de Choi+Shine o mais icônico neste caso, que procura rever o design de torres de transmissão de energia como grandiosas esculturas.

Land Of Giants - Choi+Shine

Por fim, a mensagem que está mudança nos proporciona pode ser explicitada com o acréscimo de um ponto de interrogação á frase – titulo deste artigo “Aonde a arquitetura não tem vez?”. A arquitetura plena (estética, estrutura, função) tem vez e deve estar presente em todos os cantos, e este aviso deve chegar não apenas aos arquitetos, mas aos usuários e governantes. Como diria Eloi Zanetti “Lutemos contra o encaixotamento de nossas cidades”.

E para você até aonde a arquitetura vai?

 

Projetos e autores por ordem de imagens

Falkirk Wheel - RMJM

London Cable Car – Wilkinson Eyre

Edifício Garagem – Mozhao Studio

Advanced Waste EconomyJordan Lloyd

Land Of GiantsChoi+Shine

Giovanni Medeiros
Mais conhecido pelo apelido Gjo (que se lê Dídio), é estudioso da literatura em quadrinhos, com especialização em semiótica dos super-heróis. Atualmente especializa-se em construções sustentáveis. Sua barba, um tanto intimidadora, contrasta com seu contínuo bom humor. Suas áreas de interesse vão de história a cinema, sempre com um tiquinho de carimbó.

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  1. Muito bem escrito Djo! Porém não acredito que a arquitetura tem que se limitar à antiquada tríade vitruviana de estética, função e estrutura. Acho que nossa profissão vai muito além disso.
    Também acho que gosto não define nossa atuação. Acho burrice definir arquitetura como sendo uma arte. Arquitetura é arquitetura, arte é arte, gosto é gosto e existem vários. Temos que ter consciência de que nossa produção atinge muito mais do que madames ricas que olham seu projetinho de decoração na casacor.
    Por isso acho que não se pode comparar a Arquitetura à engenharia. O campo de atuação é totalmente diferente, inclusive no modo com que devemos atingir o mercado.

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  2. arquitetura vai até onde a sociedade precisa, até onde a economia suporta, até onde a cultura representa, até onde o meio ambiente se acaba e até onde a arte se inicia.

    e ainda, vai até onde o engenheiro não vê.

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    joão
  3. Arte é uma questão mais profunda do que uma pintura, ou uma escultura.
    Uma simples olhada no significado da palavra Arte e veremos que excluir arquitetura ou qualquer manifestação humana dessa esfera, seria sim uma "burrice".
    (Arte do latim ars, significa: técnica e/ou habilidade)
    Muito bom o texto Gjo!!!!

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    Alexei Martins
    • Claro. Você matou a charada. A arquitetura deve sempre adentrar no âmbito social e seus ideiais não são e nunca foram "ser arte". A arquitetura não é desenho, não é projeto, é espaço construído que surge quando confrontamos um problema ou necessidade.
      Niemeyer só fez o congresso por que se precisava dele. Le corbusier só fez a vila savoyé pq a madame queria.
      Nossa profissão não tem um caráter representativo ou sei lá, arte pela arte.
      A arquitetura envolve tudo isso, mas não acho que ainda podemos dizer que ela é uma "arte"
      Mas sabe, opinião pessoal, por favor não concorde.

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      • Sim, eu sei que vivemos num mundo de opiniões pessoais, e ainda bem, pois assim tem contraste, tem conflito, e tem mudança.
        No que me parece arquitetura tem um papel muito complexo.
        Artes acadêmicas podem ser representativas, assim como a arquitetura do neoclássico estava estagnada na cópia da cópia. No modernismo a arquitetura entrou no meio social e dogmas antigos foram quebrados, as academias não mais tinham uma função, a monarquia, a sociedade havia mudado, mas até então, o neoclássico estava fazendo um papel na vida do homem, se era mais ou menos profundo do que temos hoje, não posso afirmar, pois o jogo de poder sempre existe.
        Hoje muito do espaço construído que considero "ruim" vem do lucro como um fim último, e do controle que a tecnologia tem sobre o homem, e não o contrario, nem da necessidade do bem estar do homem, ou pelos conhecimentos que temos hoje em meio a um controle de nossas atividades perante natureza etc. Constroem tanto, tanto, e existem tantas favelas, precisaria mesmo de tantas obras novas na cidade com cara de clubes na floresta? Como esta a cara da cidade? A violência aumentou? As coisas são de fato interdependentes.
        Não acredito nem na arte pela arte, não existe nada em si, ainda mais quando para conceber arte necessitamos de técnica e material e de uma necessidade, seja ela consciente ou inconsciente. Goya não pintou somente a "representação" da invasão Francesa, ele pintou os horrores e os conflitos mais doentios que uma guerra pode ter. Se alguma coisa no âmbito das artes plásticas não tivesse necessidade ou função, você acha que o homem ainda o faria?
        Niemeyer e Lucio Costa poderiam ter feito Brasília aos moldes de uma cohab, mas o problema e a necessidade não são apenas técnicos. Le Corbusier nunca separou arquitetura de arte.
        Achar e "denominar" que algo tem ou não "função certa" na arquitetura ou na cabeça do ser humano, talvez fosse como botar um fim em alguma possibilidade de concepção espacial.
        Temos sempre que levar em conta que estamos em constante mudança, não apenas no meio físico, mas no meio social, por exemplo, na história humana a arquitetura tinha uma função de agradar aos deuses, aos mortos, na sociedade atual seria necessário construir uma pirâmide? Os pensamentos mudaram, mas, eu acredito que nunca poderíamos tirar a função que uma pirâmide teve.
        Gropius que na faculdade é conhecido como "funcionalista" e tal, diz em relação ao Partenon."Aqui intuição e razão triunfam unidas sobre falhas de capacidade da vista humana.Aqui temos verdadeira arquitetura." e a respeito de métodos de ensino Gropius diz. "É mais importante ensinar um método de raciocínio do que meras habilidades." os trechos são do livro Bauhaus / novaarquitetura.
        De todas essas coisas o fim último do homem é sempre o homem. Técnicas e habilidades devem estar sempre subordinadas a nós, então função esta sempre ligada ao racional e ao irracional. E para fazermos coisas usamos técnicas e materiais.

        Em momento algum quero ser rude ou brigar, também não tenho a intenção de ser chato, me empolguei porque gosto muito de falar sobre essas coisas, sempre aprendo um monte quando isso acontece.

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        Alexei Martins
        • Na real eu to curtinho pra caralho! tem que haver essa discussão saudável, que não existe entre professor-aluno nas faculdades.

          Mas não disse que temos que ser funcionalistas e falar que niemeyer devia fazer cohabão por aí.

          E afinal… Por que você considera o seu curso uma arte?
          A essência da arquitetura é o seu valor estético?
          Tudo bem, pode ser, e acho MUITO válido trabalhar a arquitetura de forma sensorial (que é a força motriz da arte), mas não é só isso, e TODOS nós estudantes sabemos disso.
          Qual é a força motriz da arquitetura? A forma que ela possui? A qualidade sensorial?
          Ninguém constrói sem ter motivo, razão, necessidade.
          Isso que difere a arquitetura de uma instalação.
          Concordo que devemos sempre provocar o usuário,é a nossa sensibilidade, mas acho que o arquiteto deve ser menos artista e começar a pensar de modo mais racional, não se gera arquitetura pela emoção (por favor, não entenda mal, eu sei que existe a emoção, o fenomeno na arquitetura e o arquiteto também pensa nisso, mas só se chega nisso na arquitetura, quando um cliente chega pra você e pede um projeto pra você, ou quando uma banca de concurso escreve um edital).

          posso ter falado merda, mas não to afim mais de escrever pq minha bateria tá acabando e acabei de entregar concurso, to podre de sono.
          mas dá uma lida aqui: http://www.architectureisnotart.com
          é muito bom o artigo…

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          • Olá, quero pedir desculpa pela demora, mas as coisas estão apertadas na faculdade e tal, então ando sem tempo, mas, gostaria de deixar por escrito que ainda tenho a intenção de responder este post. Então se tiverem paciência daqui a alguns dias eu posto a resposta. :)

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  4. a vida eh arte. arquitetura então, nem se fala. os grades arquitetos ao longo da nossa existência na terra, sempre foram grandes artistas também. E belo texto companheiro Gjo.

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  5. Queria me desculpar com os colegas, duas ou mais vezes fui apertar um " positivo" nos comentários e fiz o contrário. Fico contente com a discussão gerada. Citei a tríade vitrificando por ser um ponto comum para todos arquitetos,mas podemos citar outros tantos fatores àqueles.

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    Giovanni Medeiros
  6. Artigo magnificamente bem escrito, parabéns!

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    Elisangela

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