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1º Lugar – Concurso para o Campus Cabral – UFPR

Thiago Augustus

Na última quinta-feira, dia 19 de julho, saiu o resultado do projeto vencedor do Concurso para o Campus Cabral, da Universidade Federal do Paraná. O projeto tem como autor e responsável técnico Arthur de Mattos Casas, de São Paulo, e tem em sua equipe: Raphael Azevedo França, Pedro Ribeiro, Joana Garcia de Oliveira, Gabriel de Andrade Ranieri, Roberto Cabariti Filho, Rodrigo da Costa Tamburus, Maria de Magalhães Ferreira Alves, Marcela Allegrini Muniz, Giulia Koeler e Daniela Garcia Diniz. Contou também com os consultores: Acústico, Conforto Ambiental, Sustentabilidade, Iluminação: GreenWatt; Orçamentos: i9conceitos Estrutura: Stec do Brasil Eng. Ltda; Fundações: Apoio; Fechamento em madeira: Engetrel.

Abaixo seguem memorial e perspectivas do projeto.

O Concurso para o Novo Campus Cabral antes de ser apenas objeto para um projeto de espaço universitário em Curitiba levanta um profundo questionamento sobre a abordagem de concursos públicos no Brasil. A intenção de nossa equipe em participar desse concurso foi de enfrentar o exercício de criar espaços públicos de qualidade a um custo moderado inseridos num contexto urbano extremamente dinâmico. Entretanto no decorrer desse exercício o próprio programa apresentado pela UFPR demonstra profundas contradições entre qualidade, densidade e planejamento.

Este projeto tenta manter-se o mais fiel possível às demandas do programa, porém questiona o quesito de ocupação total do potencial construtivo do terreno em duas fases. Acreditamos que existe incoerência em revindicar a permanência de uma arquitetura histórica por razões afetivas e exigir uma densidade que oprime e descontextualiza essa mesma arquitetura. O que propomos são opções no que diz respeito à segunda fase do programa e a defesa de uma primeira fase que possua harmonia com o contexto não apenas do edifício histórico, mas sobretudo com a paisagem de Curitiba.

Sem dúvida a característica mais particular do terreno é sua posição entre diversas praças que geram um contexto de grande qualidade. Acreditamos que a leitura do campus engloba esses espaços públicos, em especial a praça Brigadeiro General Eppinghaus, assim que decidimos ter na primeira fase um volume simples, monolítico, situado na borda do terreno da Universidade, porém no centro do perímetro expandido dos parques. Desta maneira a inserção na paisagem é a menos agressiva possível, tornando o monólito um pano de fundo que preserva por um lado uma leitura clara do edifício histórico, e por outro estabelece uma relação discreta com o bairro residencial do entorno e cria um sóbrio jogo de luz e sombra com as árvores do local.

O programa estabelecido tende à organização de uma massa compacta visto o grande número de espaços comuns. O aproveitamento de vistas da paisagem e a inserção no contexto, além da economicidade da obra reforçam a opção por um volume condensado. Entretanto a posição desse volume não deve ser negativa para a relação tanto do edifício histórico como do resto do terreno com os parques. Esse monólito torna-se em corte um corredor que conecta uma rede de percursos que ligam os parques e o edifício histórico. O declive do terreno é aproveitado para o desenho desse corte.

A otimização de elementos naturais como luz e ventilação, além do enriquecimento do percurso arquitetônico nos levou a criar pátios e reentrâncias nesse volume, trazendo leveza e dinamismo à massa. Quanto aos percursos de veículos, ciclistas e pedestres, consideramos que as ruas do perímetro imediato do terreno possuem tráfego rápido, o que nos leva a ter um percurso no interior do campus que tenha a menor interferência no fluxo atual do bairro. Uma via interna é assim criada, com espaços específicos de carga/descarga, estacionamentos descobertos na face oeste do terreno e estacionamento subterrâneo sob o volume. A rede de ciclovias atravessa o terreno em paralelo a via interna e o estacionamento para bicicletas está em local privilegiado perto da zona de convivência coberta. O percurso dos pedestres é enriquecido pelo rico paisagismo proposto, desníveis que geram um cenário espacial interessante e o estabelecimento de um fluxo natural entre os parques e o campus que pode ser considerado uma extensão desses parques.

A taxa de ocupação de 40% estabelecida pela lei junto com a exigência de um coeficiente 2 para a densidade final do campus dificultam uma implantação satisfatória na segunda fase. Manter o edifício histórico implica perder um potencial de ocupação que não podemos desperdiçar. Não entraremos no mérito de manter ou não o edifício histórico, apesar de nos parecer uma decisão polêmica nesse sentido seguimos à letra a demanda do programa, entretanto uma segunda fase com um volume construído de 16 mil metros quadrados não parece ser fruto de uma leitura sensível do terreno e sim uma vontade de aproveitar um potencial construtivo a todo custo. Ora, cabe justamente às instituições públicas não obedecer a uma lógica especulativa e estabelecer exemplos para a sociedade onde a qualidade espacial e funcional é muito mais relevante que os metros quadrados a construir.


O próprio programa ao ser vago na definição da segunda fase, estabelecendo um hipotético quarto departamento, restaurante universitário e extensão das atividades existentes, revelando o intuito de aproveitar o potencial construtivo acima daquilo que o terreno deveria comportar. A legislação que limita a seis pavimentos o gabarito do terreno prejudica ainda mais essa segunda fase. De maneira a respeitar o edital do concurso apresentamos um plano de massa que responde à legislação e ao programa, entretanto afirmamos que somos contra a construção da segunda fase nesses termos e apresentamos soluções paralelas que acreditamos estarem de acordo com o terreno, a paisagem e a cidade.

Confira o parecer da Comissão Julgadora, composta por: Dr. Antonio Carlos Zani, Mestre Joel Ramalho Junior, Dr. Paulo César Braga Pacheco, Dra. Maria Luiza Marques Dias e Dr. Mário Arturo Figueroa Rosales.

A Comissão Julgadora considerou por consenso ser esta a proposta que melhor atendou as necessidades apresentadas pelas bases do concurso e pelos critérios estabelecidos para o julgamento das propostas. Este trabalho de alto nível apresenta uma implantação precisa e bem articulada tanto com o acesso norte e a Casa existente com a Praça Brigadeiro Eppinghaus. Apresenta uma ótima resolução de acesso veicular, assim como um subsolo de estacionamento resolvido de maneira singularmente impecável. A permeabilidade controlada do térreo configura espaços diversos para os distintos usos coletivos previsto neste nível. A grande massa resultante do atendimento do programa em um único volume foi habilidosamente tratada com escavações pontuais que dão leveza a proposta. Apresenta uma rica espacialidade interna, gerando espaços que relacionam o interior com o exterior, além de relações espacias verticais. O partido estrutural proposto é austero, factível e econômico resultando em um edifício equilibrado e elegante.

Com o objetivo de viabilizar o desenvolvimento e execução do projeto, a Comissão Julgadora apresenta algumas considerações que foram levantadas em debate junto a Comissão Organizadora, e que deverão ser discutidas oportunamente com o futuro representante técnico da universidade. Estas observações, de maneira alguma desqualificam as grandes virtudes apresentadas pelo projeto vencedor que foi escolhido por consenso pela Comissão Julgadora.
Dito isso recomenda-se que qualificar ainda mais os espaço públicos principalmente os vinculados ao acesso norte, repensar o subsolo sob o corpo da Casa existente, tanto uso como localização, recomenda-se um rearranjo no setor dos auditórios, verificar o dimensionamento das instalações sanitárias, recomenda-se amplo desenvolvimento técnico e econômicos da envolvente de madeira, principalmente considerando os aspectos funcionais e de manutenção.
A Comissão Julgadora confia que a grande qualidade do projeto escolhido, a consistência do partido e a flexibilidade dos espaços demonstram maturidade que permitirá o desenvolvimento das considerações levantadas nesta Ata, sem o prejuízo das principais características apresentadas pela proposta vencedora , atendendo desta forma às expectativas futuras da UFPR, representada neste julgamento pela Comissão Organizadora.

Thiago Augustus
Não tem antepassados de origem asiática. Possui hábitos noturnos, quando não dispensa boa literatura e cinema inortodoxo. Estar próximo ao deadline faz parte de seu processo criativo, apesar de, ultimamente, lutar contra isso. Sempre acompanhado de música. Curte café, Le Corbusier e metáforas.

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