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A outra casa de Artigas

Mariana Steiner Gusmão

A casa Niclewicz-Bertoldi é um verdadeiro tesouro arquitetônico escondido em Curitiba.” Edson Mahfuz consegue transmitir em palavras a sensação sentida na visita à casa.

João Batista Vilanova Artigas nasceu em Curitiba no dia 23  de junho de 1915. Apesar de paranaense, foi um grande atuante do movimento da Escola Paulista. Projetada em 1975 e concluída em 1978, a casa Niclewicz- Bertoldi é localizada em Curitiba e foi concebida por um Artigas  mais maduro do que quando projetou a Residência Bettega. Os  anos 70 foram agitados pela sua volta do exílio e o impedimento  pelo regime militar de se manter atuando plenamente na  FAUUSP.

Os primeiros donos da casa eram Edgard Niclevicz, quem dá nome à residência, e sua esposa Márcia Vilanova Artigas, que era sobrinha do arquiteto. Artigas acompanhava a obra através de ligações diárias e correspondências descrevendo os materiais a serem utilizados. Pelo empenho do arquiteto em acompanhar meticulosamente a obra e pelo projeto ter sido concebido como ele quis, justificando apenas para si mesmo suas escolhas projetuais, a casa quase pode ser considerada uma “residência do arquiteto”. Isso só foi permitido graças ao bom diálogo familiar entre tio e sobrinha.

Há certa semelhança com a Residência Bettega, atualmente Casa Vilanova Artigas, nas situações dos lotes, espaços internos e na presença do estúdio. A casa se desenvolve numa planta em L, sendo o pátio gerado pelos dois vértices, coberto por uma pérgola de concreto e contendo uma piscina.

Uma grande pele de vidro trabalha com a dualidade dos espaços interno e externo. Márcia achou um problema limpar essa generosa área envidraçada. Seu tio retrucou dizendo que a sujeira fazia parte do projeto, pois sugeria os limites da arquitetura, não impostos por paredes opacas nem diluídos pela grande transparência, convencendo assim os clientes.

As rampas de circulação, marca de Artigas, estão também presentes no projeto.

Márcia contestou sobre a empena cega, que faz a casa virar as costas à rua. Contudo, Artigas não ignorou totalmente a rua, pois pela ausência de portões e diferença de piso do passeio, assim tornando um convite a entrar e gerando uma dicotomia espacial. A empena é resultado da época em que foi projetada, logo remete a um Brasil de medos e perseguições sob o jargão “ame-o ou deixe-o”. Márcia por fim concordou com o tio. Há ainda quem diga que a empena como elemento de várias obras de Artigas é uma referência às casas de madeira paranaenses.

 

 

Os materiais usados são vidro, concreto aparente e pedra. A cor está presente na fachada frontal, em azul, e na caixa d’água, em vermelho.

As escolhas do arquiteto só não foram respeitadas ao se mobiliar a casa. Artigas queria as rústicas mesas e cadeiras de “polaco”, sendo outras referências da cultura popular.

A casa atual deve ser considerada um trabalho conjunto entre Vilanova Artigas e Marcos Bertoldi, pois o atual proprietário reformou alguns ambientes e colocou um portão, por questões de adaptação e segurança.

Fotos por Gabriel Zem Schneider.

Mariana Steiner Gusmão
Desde 2010 estudando arquitetura, foi monitora na área de teoria da arquitetura. Com vinte anos, é pintora ,curte Alvar Aalto. E ainda indaga: “Esta pedra vai virar uma árvore?”.

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Comente você também! 3 comentários

  1. Hello!

    My name is Ricardo, I'm a student of architecture from spain.

    I would like to know the localization of this excelent house. I don't know the name of the street.

    Please, could you help me?

    Thanks.

    #
    Ricardo Soler
    • Ricardo, search in Google for “Marcos Bertoldi Arquitetos”, it shows the location about the house.
      The house is today an architecture office.

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      Arthur Brizola
  2. Mariana,
    Sou de São Paulo e não conhecia essa casa! Achei muito bacana seu texto!

    Gostaria de uma informação: você fala no seu texto sobre o acompanhamento da obra de Artigas, por meio de correspondências com a sobrinha…Você teve acesso a esse material? Gostaria de ver isso…
    por favor, se tiver informações, envie pro meu e-mail…

    muito obrigada,
    Camila

    #
    Camila

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